UMA VISÃO NACIONALISTA DO PENSAMENTO LATINO-AMERICANO PARA A EDUCAÇÃO: REFLEXÕES A PARTIR DE LEOPOLDO ZEA E RODOLFO KUSH

Resumo: Este trabalho é uma breve reflexão acerca dos fundamentos e da importância do pensamento filosófico latino-americano para a educação. As interpretações dirigem-se às questões próprias da América Latina e sua identidade cultural buscando implicações pedagógicas que de modo colaborem no exame de nossas práticas sociais. Procuramos explicitar algumas categorias que consideramos centrais alicerçadas na visão nacionalista dos autores Leopoldo Zea e Rodolfo Kush devido sua pertinência para a reflexão e o debate na América Latina levando em conta a dimensão educativa e crítica. Trazendo à baila o exame destes autores, indicamos a necessidade de (re) fundação do pensamento educacional que levem em conta as categorias elencadas por eles que certamente, nos auxiliariam para refletirmos um horizonte latino-americano. Assim, entendemos que o sentido de “estar” de Kush, nos ajuda a compreendermos que não basta estarmos refletindo a educação latino-americana com olhar europeu sobre os nossos problemas! Não basta querer ser latino-americano, é preciso estar na América Latina, vivenciado o sentido profundo do nosso povo, das nossas lutas e da própria educação

Palavras-chave: América Latina, Educação, Leopoldo Zea, Rodolfo Kush.

1 A Educação na América Latina

A reflexão que propusemos neste ensaio visa tratar das contribuições do pensamento latino-americano para a pesquisa em educação. Tal perspectiva nacionalista trazida pelos autores Leopoldo Zea e Rodolfo Kush constituem bases de um pensamento revolucionário, filosófico e pedagógico, a partir dos quais temos a intenção de identificar alguns marcos teóricos nesta complexa realidade latino-americana. Esse movimento de aproximação teórica é relevante, uma vez que temos atualmente uma grande quantidade de pesquisas em educação espalhadas em vários programas de pós-graduação e que não reconhecem a diversidade social e cultural, muito menos procura os elos que unem os povos a partir de uma história comum e do movimento de superação das relações sociais alienadas no capitalismo (COSTA E LOUREIRO, 2013).

O nosso ponto de partida é de que nossas sociedades estão em dívida com enormes parcelas da população condenadas a viverem em estados de “sub-emancipação”. No mesmo sentido, várias práticas educativas supostamente voltadas para emancipação não estão inseridas numa trajetória de lutas sociais, que foram ignoradas, silenciadas ou esquecidas em nossa caminhada pedagógica. Constata-se que parte dos educadores e pesquisadores não se preocupa com a tarefa social da ciência num país de tantas exclusões, isto é, não dialetizam porque as políticas públicas obedecem mais a ética do mercado do que de um compromisso efetivo com o direito das pessoas, de modo a dar condições à dignidade humana (ANDREOLA, 2003). Surge a indagação: seria possível enxergar o pensamento pedagógico latino-americano desde outra lógica, a partir dos condenados da terra[1]? (FANON, 1979). Indicamos em nosso ensaio, que este desafio:

Trata-se de buscar condições para a superação da colonialidade pedagógica impregnada na América Latina e sua história colonial de mais de quatro séculos. Com a chegada dos europeus foram subordinados as histórias e as cosmologias dos povos que aqui habitavam. A colonialidade pedagógica sinaliza o sentimento de inferioridade, com todas as ausências que se produzem nos relatos da modernidade como resultado de uma construção europeia de história, aqui realizada, a favor dos interesses de Europa (STRECK, ADAMS, MORETTI, 2010, p. 22).

 

A lógica colonial, se expressa pela distribuição desigual da riqueza, mas de maneira igual pelo domínio geopolítico da epistemologia. Está radicalizada desde o estabelecimento do sistema de classificação hierárquica em todas as esferas sociais até a supressão de economias e culturas existentes antes da chegada dos colonizadores (DUSSEL, 2000). Negar as origens das civilizações estabelecidas antes da colonização é como uma maldição que atravessa a história da América Latina, pois seus efeitos se manifestam no critério de inferioridade de povos sem história e de Estados sem nação. Ou seja, os colonizados como forma de resistência, aprenderam a cultura dos dominadores, tanto no campo da atividade material quanto da prática religiosa que engendrava uma subjetividade colonizada. Dentro desta perspectiva, colonialidade e independências colocam-se de forma igual, ou seja, a proposta descolonial dos povos indígenas e afrodescendentes não foram contempladas pela emancipação política (STRECK, ADAMS, MORETTI, 2010).

Para desenvolver uma educação emancipatória com características dos nossos povos, é preciso partir do encontro contraditório, porém indissociável entre cultura europeia, indígena e africana. A primeira identificada com o projeto da modernidade burguesa, branca e capitalista, e as outras duas, as dominadas, que carregam até hoje as conseqüências em termos de subalternidade e resistência: a colonialidade. Dito isto,

acreditamos que a atitude adequada não seja negar o legado da modernidade, mas reconhecê-lo e contextualizá-lo histórica e epistemologicamente, contudo, a lógica da monocultura eurocêntrica e abrir caminhos para outros paradigmas. Superar a colonialidade significa deixar de ser apêndice das transformações e assumir igualmente o protagonismo da construção de sociedades que valorizem as características da diversidade dos nossos povos (STRECK, ADAMS, MORETTI, 2010, p. 24).

 

Assim, o pensamento latino-americano deve assumir no discurso educacional uma nova cosmologia, ou seja, compreender a visão de estar articulado com as culturas, uma vez que, “estar na América Latina” implica não um contexto geográfico, mas eminentemente cultural (PRIEN, 1970) e complexo frente à multi-culturalidade do continente. Dentro desta compreensão, consideramos que o conceito de América Latina sofre unilateralidade porque não leva em conta os elementos indígenas e africanos eternizando sua filiação/dependência cultural com a Europa. Vários pensadores latino-americanos, a partir do século XX, começaram a reagir criticamente contra esta filiação/dependência cultural. Exemplo que pode ser observado nas elaborações críticas acerca da questão indígena que o pensamento dominante e eurocêntrico alijou de sua relevância originária, social e cultural.

 

2 A Concepção de exclusão na América Latina

Adentrando o nosso debate acerca da problemática do pensamento filosófico na América Latina, consideramos pertinente entender um conceito amplamente usado neste contexto: o conceito de exclusão. Mas ainda cabe a seguinte pergunta: excluídos de que? Neste sentido, permanecem as relações de interdependência com o restante da humanidade e com a natureza. Tais sujeitos não estão excluídos do alcance dos meios de comunicação de massa que socializa o pensamento dominante e o padrão do consumo. O povo latino-americano também possui os desejos de consumo em grande parte prometidos pela comunicação, mesmo que elas não tenham condições de satisfação dos mesmos via mercado.

Atualmente com a hegemonia da ideologia liberal no processo de globalização econômica, esse modelo de Estado provedor foi sendo deslegitimado por processos de ajustes e cortes próprios do imperativo mundial do mercado financeiro (ASSMANN, 2000). Tal mudança no conceito de Estado foi acompanhada pela crescente apatia da população frente os processos decisórios e criando seres apolíticos e insensíveis frente a questão da sensibilidade social. O equívoco ou não na percepção desta realidade é a carência de uma reflexão educacional baseada no princípio dialético de mundo que colaboram ainda mais, na manutenção do “status quo” sendo inaceitável do ponto de vista ético com implicações ao debate social.

Para uma reflexão da exclusão nos povos latino-americanos indica um ponto de partida para redefinirmos uma reflexão educacional que sirva de abordagem desta realidade. Tal abordagem da categoria exclusão, também envolve percepções da mesma como fruto de sistema colonizador, dominante e perverso onde por muitos séculos alija o povo latino-americano de sua real condição (ASSMANN, 2000). Exemplo de exclusão pode ser evidenciado com a questão ambiental no continente latino-americano que enfrenta os fundamentos da matriz de racionalidade eurocêntrica:

Essa tradição tem na geopolítica atual o desenvolvimento sustentável como nova forma de colonização/exploração. Com/contra ela, criativamente, corresponde uma série de respostas críticas com o novo protagonismo, a partir das lutas locais/regionais de camponeses, de povos indígenas e de afroamericanos que, no novo contexto geopolítico que se abre pós anos 1960, passam a ter condições de se expressar à escala internacional, inclusive se apropriando dos vetores ecológico e tecnológico. Nos domínios naturais clímato-botânicos que se formaram desde o fim da última glaciação, evoluindo para as geografias atuais, as populações originárias desenvolveram um rico acervo de conhecimentos construídos numa relação com e não contra a natureza que, tal como a mega-diversidade biológica, é um patrimônio de nossa região e da humanidade e que deve ser considerado nas políticas públicas. Surge um novo léxico teórico-político em que se fala de descolonização, de interculturalidade, de transmodernidade; de pluralismo jurídico, que respeite os direitos das gentes, consuetudinários, não mais somente o direito fundado nos princípios liberais do indivíduo e da propriedade privada (PORTO-GONÇALVES, 2012, p.16).

 

Assim, esta abordagem latino-americana vai descobrindo sua atualidade e também sua perspectiva, lugar e tempo neste esforço de diálogo e aproximação. Somos capazes de descobrir um aspecto fundamental: a existência de muitos mundos diferentes dentro do nosso mundo ou “estar latino-americano” (KUSH, 1999), dentro da nossa realidade. É reconhecendo a pluralidade que aprendemos a reconhecer as múltiplas interpretações, a respeitar os diferentes pontos de partida para a compreensão que almejamos neste breve ensaio.

Em nosso entendimento, optamos por valorizar o foco de análise partindo do enfoque do pensamento latino-americano de Leopoldo Zea e Rodolfo Kush, por reconhecermos a importância que tais autores ocupam enquanto expressão de um pensamento vivo que busca efetividade histórica em nosso continente. A opção metodológica pela postura nacionalista é justificada porque consideramos legítimo falar de “filosofias nacionais”, baseando-se na existência de características nacionais que se expressam em filosofias e cosmologias específicas (BEORLEGUI, 2004).

 

3 As Contribuições de Leopoldo Zea e Rodolfo Kush

Convidamos Leopoldo Zea ao debate sendo um dos mais importantes pensadores latino-americanos. Em seus estudos e reflexões sobre o homem mexicano na América Latina chegou à conclusão de que se pode falar de uma cultura própria latino-americana. A filosofia de Zea, é uma forma de pensar que parte de sua própria intuição original e exprime, além da realidade que ele apreende sobre a América Latina, o desejo de transformação. “É um pensador que exerce um pensamento de ação, uma práxis teórica, a qual realiza com consciência e liberdade” (LEMOS, 2007, p. 3).

O pensamento de Zea apresenta duas vertentes: a teórica-especulativa (com insistente apelo ao método histórico dominante em toda a sua obra e um humanismo latino-americanista e universalista (pela forma de reiteração de articulações chaves, atingindo toda a América Latina, assim como outros continentes), construindo formas de se pensar a latinidade, a liberdade e o progresso.

As reflexões de Leopoldo Zea sobre o homem e suas circunstâncias fundamentaram suas obras que contribuíram para o desenvolvimento da filosofia da libertação, lançando para o pensamento latinoamericano. Ao apontar as peculiaridades históricas da humanidade, a consciência que o homem deve possuir de seu passado e o seu papel social, Zea rompeu com as barreiras do obscurantismo que dominava grande parte da intelectualidade latinoamericana, abrindo caminhos para novas formas de pensar a realidade latinoamericana. Para ele “a história não é composta pelos acontecimentos puros, e sim a consciência que se tem deles”. É necessário aos povos colonizados recuperar sua “história” para se atingir à maturidade. E isso só será conseguido através do conhecimento de suas próprias experiências e da assimilação (LEMOS, 2007, p. 2).

 

Em sua obra “América como conciencia”, Zea pergunta-se de que modo o filósofo latino-americano desenvolveu sua tarefa como pensador. Para responder, o autor recorda como os europeus consideraram a América. A opinião deles pode ser resumida na celebre frase de Hegel na “Filosofia da História”, afirmando que a América é o país do futuro. Se é o país do futuro, diz Zea, então atualmente a  América é pura potencialidade, ou seja, é “sem” história. Ora, sendo o homem um ser essencialmente histórico, ao negar a historicidade ao americano, nega-se-lhe a humanidade. O que é grave, aponta Zea, é que esta posição foi assumida pelos próprios latino-americanos. De fato, após a independência, eles creram poder projetar-se para o próprio futuro, negando e desprezando seu passado. Mas, negando o passado, teimam em viver a utopia européia (e, posteriormente, norte-americana), rejeitando o que lhes era próprio, o seu “ser” latino-americano. Deste modo, os problemas não foram resolvidos e até se agravaram.

Para Zea, o ser humano é um ente histórico. Esta visão converge para a ideia de que a essência do humano é a história. Por essa perspectiva histórica, a verdade para ele adquire um valor de espaço e tempo, destacando-se em suas reflexões a relação entre as ideias abstratas e a concretude histórica com os demais saberes da cultura.

Para o nosso autor, há uma cultura de outros povos que não seriam os europeus e que estes mesmos procuram reconhecimento como parte da cultura ocidental (ZEA, 1970). No seu entendimento, o homem americano tem a preocupação em contribuir com a criação e recriação da cultura ocidental, a partir do reconhecimento da diversidade existente, à medida que existem outros povos além da Europa. Ainda assim, a rebeldia deste homem americano não deve ser somente vista na cultura, mas também contra o domínio que é realizado em nome da cultura. A preocupação do homem americano seria (re) incorporação da cultura ocidental, mas sem estar a ela subordinada. Tal preocupação passaria pela incorporação dos povos americanos levando em conta a sua independência e soberania individual e nacional.

Para Zea, seria fundamental assumir a realidade latino-americana, pois sua tendência utópica impede a América de encontrar sua identidade, pois a mesma tem a intenção de ser outra coisa (BEORLEGUI, 2004). Para o autor, no continente latino-americano, ao contrário da América Anglo-saxônica, onde a assimilação passiva da cultura moderna, o processo de colonização encontrou um confronto com a cultura que implicou determinada renúncia do seu espírito original (ZEA, 1970).

Frente a isso, Zea conclama os latino-americanos a tomarem consciência de sua identidade, do seu ser. Somente deste modo poder-se-á criar uma cultura que não seja européia. Zea, contudo, alerta que não se trata de um fechamento em si. O que é preciso é reagir, a modo próprio, às idéias dos outros, afirmando a própria originalidade. O europeu soube fazê-lo. Isto faltou ao latino-americano. Este apenas se esforçou por repetir e copiar servilmente os frutos da cultura européia, em vez de copiar o espírito que os produziu (NEUTZLING E COSTA, 2010). Para Beorlegui (2004), a visão de Zea aponta que, o grande erro do latino-americano tem sido não aceitar sua própria realidade desde a pretensão de querer ser outra coisa. Por isso, tem buscado encarnar outras identidades esquecendo-se de ser o que realmente é, e que deve ser visto em parte em seu passado histórico.

A segunda contribuição que chamamos a discussão é a do argentino Rodolfo Kush. Kusch permanece escondido no campo da filosofia acadêmica da Argentina, mas sua figura inspira jovéns e pesquisadores que se dedicam ao estudo da filosofia e ciências da cultura transpassando fronteiras. Seu Magistério transcendeu os livros se convertendo num símbolo de autencididade, profundidade e humildade intelectual. De forma prática, Kusch desmascara as categorias cristalizadas do pensamento, assim como toda tentativa de conservar rigidamente a vida (MATURO, 2010). Kusch se aventurou a conhecer e procurou fundar um pensamento emancipatório baseado no homem da América, buscando em seu próprio habitat e interpretando sua vida cultural e espiritual. Considerou que a América sofria um processo de colonização cultural que não cessou e impediu expressar sua própria cultural como uma totalidade integrada e autônoma.

El filósofo Rodolfo Kusch (1922-1979) criticó en sus escritos el pensamiento racionalista de influencia europea que dominó la interpretación de la cultura argentina desde el momento de la conformación de la nacionalidad a principios del siglo XIX. Su obra desandó el camino transitado por pensadores como Sarmiento y Alberdi. Kusch trató de deconstruir toda la estructura lógica mediante la cual aquellos habían aceptado la explicación sobre el lugar que nos correspondía en el mundo, tanto en un sentido histórico, como político y económico. Denunció las deformaciones de un sistema de educación que partía de la convicción de la superioridad de la racionalidad occidental sobre las culturas autóctonas de América (PÉREZ, 2010, p. 27).

 

Para muitos intelectuais Kusch passa a ser um indígena. Sem negar a sensibilidade social, aplicável aos índios como todo homem acometido por desigualdades políticas, o seu interesse na visão do índio americano não é curiosidade antropológica ou reivindicação social, de direitos, mas uma descoberta que revela seu foco nas camadas ocultas da humanidade.

Ningún filosofar genuino en América, sostiene Kusch, puede prescindir de ese sujeto básico, a medias o muy escasamente incorporado a las categorías y modos de vida del occidental. Pretende hacer de él el sujeto cultural americano y en consecuencia, el sujeto fundamental de la filosofía americana, una filosofía que para ser tal ha de arraigar en un suelo y en una cultura (MATURO, 2010, p. 44).

 

Kusch canalizou sua meditação sobre o homem argentino e americano para o popular cujo traço definidor é a sua pobreza e marginalidade em relação às instituições. Importa para o autor, traçar a originalidade da América reconhecendo o homem americano no despojamento do “não ilustrado”, ou seja, os pobres.

El mundo popular encierra una faz importante de nosotros mismos. Buscando su pensamiento descubriremos el pensamiento propio. En nuestro contacto con el pueblo necesitamos descubrir lo negado. La negación en América no es una cuestión metodológica, sino existencial. Tenemos que asumir todo el pensar a partir de lo negado por la positividad occidental (PÉREZ, 2010, p. 36).

 

Para este pensador, é essencial buscarmos a identidade da América, que ele denomina de “América Profunda” com uma feição popular e libertadora. No prólogo do livro América Profunda, Maicas, alude que para a filosofia de Kush, a filosofia da alteridade (reconhecimento) não é suficiente para esta tarefa. Pois a força da filosofia de Kush está em deixar de lado a história dita universal (KUSH, 1999). A obra América Profunda questiona os fundamentos da disciplina visando problematizar a própria noção de filosofia que possui uma obsessão por uma racionalidade que não permite enxergar outra possibilidade.

Logra, con su crítica, atacar muchas certidumbres racionalistas que, en su concepto, paralizan el pensamiento americano y lo vuelven estéril. Kusch muestra con convicción que el pensamiento americano no puede ser simplemente un anexo al pensamiento racionalista europeo. El pnsamiento americano parte de un proceso dialéctico de negación, que es, al mismo tiempo, un movimiento de resistencia y autoafirmación del hombre americano, ante la invasión colonial de un pensar anquilosado europeo que ve a América como ente, como objeto, al que trata de manipular para su propia utilidad, tanto en un sentido económico como cultural. Al hacerlo la transforma en un objeto sin vida y sin historia. El pensamiento occidental no tolera otra racionalidad posible que la propia (PÉREZ, 2010, p. 28).

 

Para Kush, há a necessidade de analisar as culturas pré-colombianas e indígenas respeitando suas diferenças. Para ele, “ser americano” é “ser mestiço”, onde o índio é um “ser primogênito” (BEORLEGUI, 2004). Logo, Kush traz a lume um deslocamento no entendimento da raiz da identidade americana. Para ele, havia diferenças abissais entre a forma européia de pensar e a dos povos indígenas. Segundo Kush, o pensamento europeu é sustentado no “ser”, enquanto o indígena, em “estar” na realidade latino-americana. O ser latino-americano seria o mestiço, mas esta mescla de camponeses, Kush indica sempre o componente indígena como mais profundo e primogênito entre todos. Segundo o autor, se o americano quer recuperar sua identidade verdadeira, tem que ir em busca do indígena (BEORLEGUI, 2004).

Segundo Kush (1999), estamos comprometidos com a América muito mais do que pensamos estar, uma vez que, encontrar o seu caminho neste mundo é assumir a excentridade da nossa situação cultural e, sobretudo religiosa; não para emanciparmos dos laços tradicionais, mas para reivindicar a particularidade destes vínculos. Podemos apontar que:

Para Kusch el miedo que sentimos a ser nosotros mismos deriva del miedo inicial a pensar lo nuestro. Cree que el filosofar se há estancado en América porque no conquistamos nuestra propia técnica para filosofar. Los pensadores cultos no han sabido entender el pensar popular, ni aprender de él. En el pensar popular la técnica o lógica para pensar es algo secundario, lo fundamental es el sentido; el pensar popular no se preocupa de “cómo” se dice algo, sino de “qué” se dice. Kusch cree que tiene que haber un equilibrio entre contenido y forma. El pensar europeo, sin embargo, ha valorado la forma por encima Del contenido (PÉREZ, 2010, p. 29).

 

4 Conclusão: implicações do pensamento de Zea e Kush à Educação

O pensamento latino-americano contribui no sentido próprio de uma reflexão interpretante e crítica como imperativo à questão educativa. Pois, entendemos a crítica educacional a partir destes autores ligado e ambos possuem dois elos: a primeira é a chaga da pobreza na América Latina, e a segunda, a da agressão destes povos ameaçados pela feição colonial assumido a partir do desenvolvimento capitalista.

A injustiça social significa violência ao ser mais complexo e singular, que é a pessoa humana como parte integrante da natureza. Estruturalmente, surge de modo relevante e indispensável quanto à dimensão “revolucionária”; a situação de degradação e exclusão social sofrida pelos povos da América Latina.

Assim, o pensamento latino-americano denota seu viés crítico e questionador porque exige o reexame da teoria e a crítica da sua prática (COSTA, 2011). Se for verdade que a teoria nasce da prática e com ela se desenvolve dialeticamente, o modo de refletir latino-americano se encontrará a favor daqueles que são espoliados pelos meios de produção, estabelecendo com eles, sua autocrítica. Tanto Zea e Kush em suas reflexões, orientam sua prática afirmando que filosofar (no sentido social) é antes de tudo uma tarefa ética, nos colocando à serviço do outro, e auxiliando em sua libertação social e política.

Tal aspecto serve para nos inserirmos numa visão ampla e emancipatória do ser humano a partir de sua condição real de existência. Pois a práxis transformadora é, portanto, aquela que fornece e dá condições ao processo social para superar seus antagonismos sociais entre seus sujeitos, visando à redefinição de lógicas excludentes que definem a sociedade capitalista.

Uma filosofia crítica latino-americana possui real contribuição pedagógica para a educação. Assim, o pensamento latino-americano é o pensar que sabe perscrutar a voz do oprimido (“o outro”) dentro da realidade e que sabe comprometer-se com o movimento ou com a mobilização da sua libertação. Este pensar filosófico como um grito, um clamor, é a exortação de um processo educativo inquieto e radical diante a lógica opressora de seu continente e da sua situação! Ou seja, as contribuições de Rudolph Kush e Leopoldo Zea para a educação tendem a interpretação da voz latino-americana como um momento novo na história da filosofia, por trazer até nós a interpretação radical da categoria “estar” como exigência ética e radical ao fenômeno educativo.

Kush levou a filosofia da existência as suas últimas conseqüências e não foi um entre poucos intelectuais capazes de compreender a realidade latino-americana. Sua filosofia foi um trabalho solitário e contínuo de crítica a filosofia ocidental para sentar as bases de uma filosofia independente que reflete o espírito dos povos e do espaço americano. Ele não criou uma filosofia própria, mas buscou discutir um método para uma filosofia americana, onde a mesma não poderia ser especulativa ao modo ocidental, teria que ser “aplicada”. Ou seja, Kusch não teve ideia de como seria esse pensamento americano que ainda está sendo desenvolvido, pois até agora, muitos pensadores não têm encontrado um pensamento próprio.

Kush aponta uma “iniciação”, um caminho que deve partir de uma interpretação do pensamento popular. Pensamento popular que nega a positividade da ciência ocidental baseado no ente. Assim, Kush define o estar como referência ao contrário de ser, pois para entender o sentido de estar tem que explorar e existir. Por fim, nosso viver na América se concretiza num estar-sendo. Devemos encontrar uma expressão cultural para esta estrutura do nosso viver, o estar-sendo que constitui um princípio a partir de um horizonte próprio; latino-americano na visão de Kush.

Da mesma forma, a contribuição de Zea é inestimável. Desde suas primeiras obras o autor contextualiza o seu discurso filosófico. Zea se preocupa em ampliar o campo da cultura analisando a relação dialética entre convergência e especificidade, porém só a partir do específico, do peculiar, das diversas expressões culturas dos homens e povos.

Preocupou-se não apenas com as ideias filosóficas centrando também sua reflexão sobre os problemas sociais. Tal preocupação se acentuou ainda mais com as alterações no contexto histórico latino-americano, na década de sessenta e início de setenta, quando surgiram novas formas de lutas como a Filosofia da Libertação e a Teologia da Libertação (LEMOS, 2007).  Zea identificou as formas de dominação nos povos e que se articularam em torno da Filosofia da Libertação com suas estratégias teóricas e os objetivos de um discurso libertador. De fato, para Zea, a universalização da filosofia não se consegue apenas com o discurso da libertação, através da imposição, mesmo do próprio eurocentrismo e da chamada filosofia universal ou europeia. Sua reflexão procura ir além da circunstância histórica e do método de filosofar europeu. É uma dialética que vai da práxis à teoria e vice-versa, porém uma dialética aberta onde as circunstâncias que ele propõe é uma forma original de aproximar-se do ser humano.

Trazendo à baila o exame destes autores, indicamos uma (re) fundação do pensamento educacional que levem em conta as categorias elencadas por eles que certamente, nos auxiliariam para refletirmos um horizonte latino-americano. Assim, entendemos que o sentido de “estar” de Kush, nos ajuda a compreendermos que não basta estarmos refletindo a educação latino-americana com olhar europeu sobre os nossos problemas! Não basta querer ser latino-americano, é preciso estar na América Latina, vivenciado o sentido profundo do nosso povo, das nossas lutas e da própria educação.

 

Referências bibliográficas

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[1] A obra Os Condenados da Terra, de Frantz Fanon, livro considerado, junto com Pedagogia do Oprimido, de Paulo Freire, um dos clássicos mais importantes da descolonização. Fanon é compreendido no contexto em que a população argelina obriga-se a combater o poderosíssimo Estado Colonialismo Francês. Trata-se de uma luta anticolonial, africana e terceiro mundista. Aqui, o povo, anteriormente sob o jugo da colonização, buscava afirmar seu protagonismo nas metamorfoses históricas, banindo preconceitos que afirmavam categoricamente a África como continente sem pensamento autônomo, incapaz de pensar seu mundo da vida e sem história, (…) 378. Ao concluir a reflexão em Os condenados da terra, com voz profética, Fanon (1979, p. 271-74) anuncia a esperança: “o dia novo que já desponta deve encontrar-nos firmes, avisados e resolutos (…). Deixemos a Europa que não cessa de falar do homem enquanto o massacra por toda parte (…), em todas as esqunas de suas próprias ruas, em todas as esquinas do mundo”, uma Europa que assumiu a direção do mundo com “ardor, cinismo e violência”, obrigando-se a manter “um diálogo consigo mesma, um narcisismo cãs vez mais obsceno”. O caráter educativo da obra de Fanon, aparece na proposta da luta organizada e solidária (…) (GHIGGI E KAVAYA, 2010, p. 378-380).

Para citar este artículo puede utilizar el siguiente formato:
Costa, César Augusto: "Uma visão nacionalista do pensamento Latino-Americano para a educação: Reflexões a partir de Leopoldo Zea e Rodolfo Kush" en Atlante. Cuadernos de Educación y Desarrollo, junio 2014, en http://atlante.eumed.net/pensamento-latino-americano/

Atlante. Cuadernos de Educación y Desarrollo es una revista académica, editada y mantenida por el Grupo eumednet de la Universidad de Málaga.