A EDUCAÇÃO DE JOVENS E ADULTOS E O CURRÍCULO DE BIOLOGIA NAS ESCOLAS ESTADUAIS DO MUNICÍPIO DE GUARAPARI – ES, BRASIL

ABSTRACT

The research aimed to identify criteria used by biology teachers EJA mode of state schools Guarapari for choosing the content to be worked during the semester while pointing out that the most cited and least cited by teachers content. For data collection a questionnaire in the second half of the year 2013 with teachers and pedagogues and subsequent analysis of the syllabus was applied . The criteria used by teachers in the choice of the document contents were Common Basic Contents of state schools , course plan for regular education student’s reality and old evidence ENEM . The contents were most frequently cited by teachers human body , anatomy, health and prevention, followed by human reproduction and sex education , rather commonplace themes in everyday student. According to the state Common Basic Contents document content levels of organization and classification of living things, histology, development and study of the plant kingdom were not mentioned by the professionals.

Keywords: Resume. Biology. Contents. Teachers. EJA.

RESUMEN

Esta investigación tuvo como objetivo identificar los criterios utilizados por el modo de los profesores de biología de la Educación de Adultos ( EJA), las escuelas estatales Guarapari para elegir el contenido a ser trabajado en el semestre más el punto de que la mayoría del contenido citado y los menos citados por los docentes. Para la recolección de datos se aplicó un cuestionario en el segundo semestre del año 2013 con los maestros y pedagogos y posterior análisis del plan de estudios. Los criterios utilizados por los profesores en la elección de los contenidos del documento fueron Contenidos Básicos Comunes de las escuelas públicas, el plan de curso para la realidad de los estudiantes de educación regular y antiguo ENEM evidencia. Los contenidos fueron más frecuentemente citados por los docentes del cuerpo humano, anatomía, salud y prevención, seguida de la reproducción humana y la educación sexual, los temas más comunes en los estudiantes todos los días. De acuerdo con el estado de los niveles de contenido Contenidos Básicos Comunes documento de organización y clasificación de los seres vivos, la histología, el desarrollo y el estudio del reino de las plantas no fueron mencionadas por los profesionales.

Palabras clave : Curriculum. Biología. Contenido. Profesores. EJA .

  • Introdução

O tema currículo é bastante pesquisado devido à sua grande relevância no ambiente escolar. Está presente e é vivido, construído e reconstruído diariamente na escola pelos alunos e professores. Segundo as orientações curriculares para o ensino médio do Ministério da Educação – MEC (2006), a política curricular deve ser entendida como expressão de uma política cultural, na medida em que seleciona conteúdos e práticas de uma dada cultura para serem trabalhados no interior da instituição escolar. No entanto, apesar da sua importância, a modalidade de educação de jovens e adultos (EJA) não possui um currículo específico. Geralmente os docentes fazem adaptações e escolhem determinados conteúdos baseados nas orientações curriculares do ensino regular, o que não é interessante, visto que, os discentes do noturno/EJA possuem necessidades próprias, grande diversidade cultural/social/laboral e outras especificidades.

A presente pesquisa buscou, no ano de 2013, investigar quais os critérios utilizados pelos professores de biologia das escolas estaduais do município de Guarapari – ES para selecionarem os conteúdos que serão trabalhados durante o semestre letivo para os discentes da EJA. Além disso, procurou comparar o plano de ensino dos profissionais que atuam na disciplina de Biologia nas escolas estaduais nas três etapas do ensino médio, identificar os conteúdos mais selecionados pelos professores e apontar quais conteúdos não são citados.

De acordo com as orientações curriculares para o ensino médio do MEC:

Os conteúdos de biologia devem propiciar condições para que o educando compreenda a vida como manifestação de sistemas organizados e integrados, em constante interação com o ambiente físico-químico. O aluno precisa ser capaz de estabelecer relações que lhe permitam reconhecer que tais sistemas se perpetuam por meio da reprodução e se modificam no tempo em função do processo evolutivo, responsável pela enorme diversidade de organismos e das intrincadas relações estabelecidas pelos seres vivos entre si e com o ambiente. O aluno deve ser capaz de reconhecer-se como organismo e, portanto, sujeito aos mesmos processos e fenômenos que os demais. Deve, também, reconhecer-se como agente capaz de modificar ativamente o processo evolutivo, alterando a biodiversidade e as relações estabelecidas entre os organismos. (BRASIL, 2006)

Através da leitura do documento do MEC percebe-se a valorização das temáticas de biodiversidade, ecologia, evolução e respeito às outras formas de vida. Tal documento também seleciona seis temas estruturantes (interação entre os seres vivos; qualidade de vida das populações humanas; identidade dos seres vivos; diversidade da vida; transmissão da vida, ética e manipulação gênica; origem e evolução da vida) que podem guiar o professor e auxiliá-lo na definição de suas ações pedagógicas. De acordo com Morais (2009) o ensino de ciências e biologia deve proporcionar ao aluno da EJA a oportunidade de visualização de conceitos ou de processos que estão sendo construídos por ele na escola (…) fazendo com que cada um se conscientize e se responsabilize pelo destino da sua própria vida. O que percebemos através da prática na de sala de aula é que o aluno se interessa e valoriza mais os conhecimentos que fazem parte e que podem ser aplicados em seu dia a dia. A desvinculação entre o que se ensina na escola e a realidade vivida ocorre no ensino em geral, é uma questão que se torna ainda mais problemática na EJA em função do perfil desses alunos, que normalmente tem sua trajetória marcada por “fracassos escolares”. (Rocha, 2010)

Sabe-se que a EJA não possui um currículo específico. Desta maneira, fica a critério do docente a seleção dos conteúdos a serem trabalhados durante o semestre para cada turma tendo o documento Conteúdo Básico Comum (CBC) da Secretaria de Educação do Estado do Espírito Santo como norteador. Essa realidade não é boa, visto que o professor pode acabar selecionando os conteúdos de acordo com a sua preferência e não focando na realidade do educando, ou seja, o que é necessário o aluno da EJA aprender. Além disso, se o discente necessitar mudar de escola durante o semestre letivo haverá prejuízo na sua aprendizagem, pois corre o risco de perder conteúdos ou não acompanhar a nova matéria por falta de pré- requisitos.

A principal contribuição que o trabalho pode oferecer é identificar quais conteúdos são mais trabalhados pelos professores e identificar o critério de seleção desses conteúdos sinalizando possibilidades para o desenvolvimento de um currículo específico para os discentes da EJA. 

  • Desenvolvimento

Para atender aos objetivos propostos, foi aplicado aos professores de biologia das escolas estaduais do município de Guarapari e aos pedagogos das respectivas escolas um questionário contendo questões abertas e fechadas sobre o assunto. Segundo Gil (2009) a utilização de questionários possui uma série de vantagens como não expor os pesquisados à influência das opiniões e do aspecto pessoal do entrevistador, permitir que a pessoa responda aos questionamentos no momento em que julgarem mais conveniente, garantir o anonimato das respostas e implicar menores gastos. Além disso, será realizada uma análise dos planos de curso semestral dos professores que concordarem em ceder tal documento para o estudo. A pesquisa será documental e, de acordo com Lakatos e Marconi (1997), os tipos de documentos analisados serão de fonte primária (dados do site da Secretaria de Educação do Espírito santo – SEDU e planos de curso dos professores) e fonte secundária (outros trabalhos já publicados sobre o assunto ou que estão relacionados ao currículo de biologia na EJA). Ainda segundo as autoras, os procedimentos de coletas de dados serão do tipo documental, questionário e a análise de conteúdo.

Inicialmente faremos uma breve revisão sobre o conceito de currículo. Segundo Ferraço (2005) a palavra currículo vem da palavra latina Scurrere, correr, e refere-se a curso. As implicações etimológicas são que, com isso, o currículo é definido como um curso a ser seguido, ou mais especificamente, apresentado (Goodson, 1995 apud Ferraço, 2005). Ferraço e carvalho (2012) dizem que o currículo como multidão e/ou democracia radical, envolve modos de vida coletiva, potencializados pelas conversações e ações de seus praticantes integrados às múltiplas redes de trabalho educativo que incidem sobre o contexto escolar. De acordo com Saviani (2011) o currículo é uma organização do conjunto das atividades nucleares distribuídas no espaço e tempo escolares. Sacristán (2000) compilou diversas definições, acepções e perspectivas sobre currículo e concluiu que o mesmo pode ser analisado a partir de cinco âmbitos:

  • O ponto de vista sobre sua função social como ponte entre a sociedade e a escola.
  • Projeto ou plano educativo, pretenso ou real, composto de diferentes aspectos, experiências, conteúdos, etc.
  • Fala-se do currículo como a expressão formal e material desse projeto que deve apresentar, sob determinado formato, seus conteúdos, suas orientações e suas consequências para abordá-lo
  • Referem-se ao currículo os que o entendem como um campo prático, supondo a possibilidade de analisar os processos instrutivos e a realidade da prática a partir de uma perspectiva que lhes dota de conteúdo, estudá-lo como território de intersecção de práticas diversas que não se referem apenas aos processos de tipo pedagógico, interações e comunicações educativas, sustentar o discurso sobre as interações entre a teoria e a prática em educação.
  • Referem-se a ele os que exercem um tipo de atividade discursiva acadêmica e pesquisadora sobre todos estes temas. (SACRISTÁN, 2000, p. 14).

Finalizando a conceituação, Carvalho (2005) ainda faz a diferenciação entre as formas do concebido e do vivido em relação ao currículo. O currículo concebido está relacionado ao currículo formal, tendo como referência no Brasil os parâmetros curriculares nacionais e no estado do Espírito Santo a proposta curricular descrita no CBC. Já o currículo vivido é aquele que efetivamente se manifesta e que envolve relações de poder, cultura e escolarização.

Temos ciência que o currículo vai muito além do conjunto de conteúdos a serem ensinados aos alunos. Ele compreende também fatores sociais, históricos, culturais e políticos da escola e do professor, além das diversas práticas que ocorrem no ambiente escolar. No entanto, devido ao curto tempo da pesquisa, este trabalho limitou-se a analisar os conteúdos trabalhados com os alunos da EJA durante o semestre letivo. O currículo de biologia na EJA possui alguns estudos pontuais, mas, significativos para a discussão do assunto. Destacam-se: A monografia de Rocha (2010) que analisou a autonomia docente na seleção dos conteúdos curriculares de biologia, os critérios utilizados para uma possível seleção e a importância que os professores atribuem ao conteúdo para a permanência do aluno na escola; o artigo de Morais (2009) que mostrou a eficiência da utilização de livros didáticos, artigos e revistas científicas no aprendizado de ciências e biologia de jovens e adultos no município de Sorriso – MT; o artigo de Jaloto (2011) que destaca a necessidade de reflexão sobre a seleção dos conteúdos de ensino; o artigo de Oliveira (2007) que destaca a necessidade de formular propostas curriculares que dialoguem com os saberes, valores, crenças e experiências dos educandos; o artigo de Abreu e Vóvio (2010) que destaca a importância da constante renovação e reorganização do currículo.

  • Resultados e discussão 

A aplicação dos questionários ocorreu em cinco escolas estaduais do município de Guarapari, listadas no quadro 1 abaixo, e se deu entre os meses de agosto e outubro do ano de 2013.

Escolas participantes da pesquisa:

EEEFM Joventina Simões. Bairro Olaria

EEEFM Leandro Escobar. Bairro Perocão

EEEFM Manoel Rosindo da Silva. Bairro Meaípe

EEEFM Zenóbia Leão. Bairro Olaria

EEEFM Zuleima Fortes Faria. Bairro Itapebussu

Quadro 1: nome e localização das escolas participantes da pesquisa.

As escolas EEEFM Zenóbia Leão e EEEFM Zuleima Fortes Faria possuem dois professores de biologia no turno noturno, desta forma foram entregues um total de sete questionários aos professores de biologia e cinco aos pedagogos. Quanto aos questionários dos pedagogos, apenas um não retornou ficando dessa forma quatro questionários para análise. Já o questionário de caracterização dos professores de biologia apenas uma professora não retornou ficando desta forma seis questionários para análise. Em relação à entrega dos planos de curso para análise, apesar da grande insistência e retorno às escolas por três vezes obtivemos retorno de apenas três professores.

  • Pedagogos

O questionário aplicado aos pedagogos teve como objetivo obter informações sobre questões burocráticas em relação à escola como número de turmas, quantas aulas de biologia há na semana para as turmas de EJA e qual o prazo para a entrega dos planos de curso. No quadro 2 está o quantitativo de turmas por escolas bem como a distribuição nas séries (1ª, 2ª e 3ª etapas).

 

Escolas

Turmas/Etapas

EEEFM Joventina Simões.

______

EEEFM Leandro Escobar.

Seis turmas, duas de cada etapa, 1ª, 2ª e 3ª

EEEFM Manoel Rosindo da Silva.

Três turmas, uma de cada etapa, 1ª, 2ª e 3ª

EEEFM Zenóbia Leão.

Sete turmas, duas de 1ª etapa, três de 2ª etapa e duas de 3ª etapa

EEEFM Zuleima Fortes Faria.

Nove turmas, três de cada etapa

Quadro 2: número de turmas das escolas pesquisadas.

As aulas de biologia acontecem duas vezes por semana para todas as etapas, quantitativo semelhante ao ensino regular. Desta forma, o professor de biologia possui um tempo relativamente adequado para desenvolver seus conteúdos e atividades, diferente do que ocorre com as matérias de história, lecionada apenas nas 1ª e 2ª, etapas e geografia, lecionada apenas nas 2ª e 3ª etapas, fato que obriga o professor a condensar/adequar mais o conteúdo. Três pedagogos afirmaram que os professores possuem um prazo de quinze dias contados a partir da Jornada de Planejamento Pedagógico (JPP), que ocorre no início do semestre letivo, para a entrega do plano de curso. Apesar de não ter limitado uma data específica, um pedagogo disse que após a reunião do JPP os professores possuem um prazo de entrega do documento. No entanto o que foi observado nas escolas é que esse prazo não é cumprido de forma satisfatória visto que alguns docentes não possuem o documento pronto após cerca de três meses do início das aulas e do JPP. Esse prazo para a entrega do plano de curso permite ao professor realizar um diagnóstico da turma bem como identificar seus anseios em relação à escola e, desta forma, selecionar os conteúdos mais adequados para serem trabalhados com os alunos. Todos os pedagogos concordaram em ceder o plano de ensino de seus professores para serem analisados na pesquisa.

  • Professores

O questionário de caracterização buscou conhecer os sujeitos participantes da pesquisa coletando várias informações dentre elas informações referente à formação e tempo de serviço dos professores. Dos seis questionários analisados, quatro são de professoras e dois de professores, a idade dos docentes varia de 30 a 53 anos, quatro são casados e dois são solteiros.

Em relação à formação cinco profissionais se formaram em instituições particulares e um em instituição pública federal e todos os possuem pós-graduação em nível de especialização.

Em relação ao tempo de serviço, um professor possui de 3 a 5 anos de experiência, três professores possuem de 5 a 10 anos e dois professores possuem mais de 10 anos de experiência na educação. Sendo assim, percebe-se que todos os professores já possuem experiência na área da educação.

A última pergunta do questionário está relacionada ao tempo de docência exclusivamente na modalidade de educação EJA e esse tempo variou de um a oito anos. Desta forma, nota-se uma heterogeneidade em relação ao trabalho com a modalidade EJA.

O segundo questionário teve como principal objetivo identificar quais conteúdos os professores pensam ser os mais relevantes para os alunos da EJA e identificar quais os critérios utilizados na seleção de tais conteúdos. A primeira pergunta se refere aos critérios utilizados pelos professores na seleção dos conteúdos para as turmas da EJA. Três professores citaram o documento Conteúdo Básico Comum (CBC) como um dos critérios utilizados na seleção dos conteúdos. Dois professores afirmaram que baseiam-se no plano de curso do ensino regular fazendo as devidas adaptações de acordo com a necessidade e cotidiano do aluno, ou seja, selecionam conteúdos que podem ser mais bem trabalhados através da contextualização. Dois professores disseram que o critério de seleção é a realidade do aluno, ou seja, selecionam conteúdos que possuam significado para o cotidiano dos discentes. Provas antigas do ENEM e trabalho com textos e interpretações também foram citados nessa questão.

A segunda questão está relacionada à opinião do professor quanto aos conteúdos mais relevantes para os alunos da EJA. Os conteúdos citados foram:

- Bioquímica: citado uma vez

- Reprodução humana e educação sexual: citado três vezes

- Os reinos dos seres vivos, principalmente os microorganismos: citado uma vez

- Corpo humano, anatomia, saúde e prevenção: citado cinco vezes

- Ecologia: citado duas vezes

- Genética: citado uma vez.

Analisando os conteúdos descritos pelos professores como mais relevantes para os alunos da EJA percebe-se que eles podem ser agrupados em dois grandes grupos, ambiente (ecologia e seres vivos) e saúde (bioquímica, reprodução humana, educação sexual, corpo humano, anatomia, genética, saúde e prevenção). Tais conteúdos estão muito relacionados ao cotidiano dos cidadãos, pois atualmente tem-se dado bastante destaque aos problemas ambientais bem como maneiras de preveni-los ou minimizá-los. Conteúdos de saúde também são muito evidentes no dia a dia dos alunos, pois epidemias como dengue, campanhas sobre doenças sexualmente transmissíveis, campanhas de vacinas, dentre outras ações do governo e da esfera particular sempre são veiculados na mídia. De acordo com Saviani (2011) o saber metódico, sistemático, científico, elaborado, passa a predominar sobre o saber espontâneo, “natural”, assistemático, resultando daí que a especificidade da educação passa a ser determinada pela forma escolar. Desta forma, ratifica-se a importância do trabalho com esses temas na sala de aula, desmistificando informações e/ou interpretações errôneas bem como instrumentalizando os alunos para entender, modificar e agir no ambiente em que está inserido, ou seja, inserindo-o num saber científico e elaborado. Interessante apontar que tais conteúdos estão de acordo com dois dos temas estruturantes da orientação curricular do MEC, interação entre seres vivos e qualidades de vida das populações humanas.

Sobre a pergunta número três todos os professores acham importante a adoção de um currículo específico pra EJA. Oferecer um direcionamento, adequar os conteúdos à realidade dessa modalidade, possuir uma sequência facilitando o trabalho e permitindo uma continuidade para o aluno, caso este mude de escola, foram as justificativas apontadas pelos professores para justificar a adoção do currículo específico. Dois professores ressaltaram que apesar de pensarem ser necessária a adoção do currículo específico, este não deve ser estático e nem se limitar aos conteúdos exigidos nas provas nacionais e estaduais tais como ENEM e PAEBES, mais uma vez, percebe-se a necessidade de contextualização dos processos de ensino e aprendizagem tornando-os mais significativos para os alunos.

Em relação á última pergunta todos os professores concordaram em ceder o plano de curso para a pesquisa, no entanto, somente três deles possuíam o documento pronto. Retornei às escolas mais duas vezes, solicitei por telefone e e-mail os planos dos professores que não tinham entregado, no entanto, não obtive retorno.

Comparando os planos de ensino percebe-se uma similaridade quanto às respostas principalmente em relação aos conteúdos e à importância da adoção de um currículo específico para o público da EJA.

Tendo como base o documento CBC os conteúdos que não foram citados pelos professores foram: níveis de organização e classificação dos seres vivos, histologia, evolução e estudo do reino das plantas. Esse fato justifica-se pela reduzida carga horária na EJA obrigando os professores a fazerem a seleção dos conteúdos que irão trabalhar com os discentes. De acordo com Carvalho (2005) o currículo praticado representa de forma nem sempre explicita o jogo de interações e/ou relações presentes no cotidiano escolar. Desta forma a supressão dos conteúdos supracitados pode ser consequência também da falta de ligação direta desses temas com o cotidiano do aluno obrigando o docente a dar outro enfoque à sua aula abordando conteúdos mais contextualizados e evidentes no cotidiano do aluno. 

  • Considerações finais

É indiscutível a importância da seleção dos conteúdos a partir das especificidades de cada contexto educacional oportunizando o sucesso dos alunos bem como sua emancipação cultural, política, social e educacional. O currículo está fortemente comprometido com relações de poder que distribuem desiguais oportunidades de sucesso aos diferentes grupos sócio-culturais (LEITE, 2005). Através das análises dos questionários percebe-se que os professores utilizam critérios diferenciados para a seleção dos conteúdos, no entanto, grande parte deles acaba adequando tais conteúdos do ensino regular para as turmas da EJA. Esse fato pode ser prejudicial visto a especificidade e heterogeneidade dos alunos desta modalidade. Selecionados desta forma os conteúdos podem não ser os mais pertinentes para o público da EJA que possui diferentes necessidades e interesses em relação aos alunos do ensino regular.  A partir disso surge a necessidade, confirmada por todos os profissionais que participaram deste estudo, da necessidade de um currículo específico para os alunos da EJA, um currículo que não seja engessado ou estático, mas que vá ao encontro dos anseios e necessidades dos discentes. Os conteúdos mais citados pelos professores como relevantes para os alunos foram distribuídos nos grupos de saúde e ambiente, temas muito corriqueiros no cotidiano dos alunos bem como na mídia, sendo necessária a aquisição conhecimento mais aprofundado e científico sobre tais áreas permitindo aos alunos/cidadãos propor soluções e resolverem problemas acerca dessas questões. Já os conteúdos relacionados à classificação dos seres vivos, evolução e reino das plantas não foram citados, demonstrando que não são trabalhados frequentemente nas salas de aula na modalidade EJA. 

  • Referências

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Para citar este artículo puede utilizar el siguiente formato:
Nessrala Nascimento, Flávia y Rosetti Junior, Helio: "A educação de jovens e adultos e o currículo de biologia nas escolas estaduais do município de Guarapari – ES, Brasil" en Atlante. Cuadernos de Educación y Desarrollo, marzo 2014, en http://atlante.eumed.net/curriculo-biologia/

Atlante. Cuadernos de Educación y Desarrollo es una revista académica, editada y mantenida por el Grupo eumednet de la Universidad de Málaga.